A SUTIL ARTE DA COMUNICAÇÃO ASSERTIVA COM ELEGÂNCIA

Para aquecer a nossa conversa, quero te perguntar uma coisa. Você já parou para refletir se falar e comunicar são sinônimos? Sempre que penso neste ponto, me lembro imediatamente de Rui Barbosa e seus patos de estimação. Calma, eu explico!

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Foi averiguar e constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus patos, disse-lhe: Oh, bucéfalo anácrono!…Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei á quinquagésima potência que o vulgo denomina nada. E o ladrão, confuso, diz: Dotô, rezumino…  Eu levo ou dêxo os pato?

Em termos simples, fico aqui pensando que, comunicar é…fazer sentido no modelo mental do interlocutor.

É importante também ter sempre em mente que existem dois níveis de comunicação que operam ao mesmo tempo: o verbal ( as palavras faladas, escritas ) e o não verbal ( linguagem corporal, tom de voz, imagens, cores, energia).

Dr Albert Mehabian e a linguagem não verbal Também vale trazer aqui, os estudos sobre comunicação não verbal, desenvolvidos por Albert Mehrabian, nos anos 1960,   com a fórmula famosa da comunicação da EMOÇÃO, conhecida como 7-38-55.

E antes de prosseguirmos, cabe um belíssimo parêntese: formula tem sido amplamente distorcida e difundida de forma rasa. O autor estava se referindo acomunicação da emoção. Caso contrário todos nós poderíamos viajar para a China e, mesmo sem falar mandarim nos entendermos maravilhosamente bem com os chineses! Tenha a santa paciência , não é mesmo!

A fórmula explica como sentimentos e atitudes são transmitidos em interações face a face: apenas 7% vem das palavras, 38% do tom de voz e 55% da linguagem corporal. Essa proporção surge de experimentos na UCLA, onde o pesquisador  testou como as pessoasinterpretam mensagens inconsistentes. Quando palavras, tom e expressões faciais conflitam, o receptor prioriza o não verbal para formar impressões emocionais Insights podemos ter até aqui?

·         Podemos não falar nada e ainda assim estarmos nos comunicando;

·         O como falar surte impacto significativo na mente do receptor;

·         O resultado da comunicação é uma combinação do que o indivíduo diz, de como diz e  do patrimônio de referência de quem interpreta, ou seja, o modelo mental do interlocutor.

E, já que o tema é a sutil arte da comunicação assertiva, como podemos pensá-la? Nesta jornada como mentora de capital humano, observo diariamente líderes inspiradores em ação na hora da verdade da comunicação. Aqui vão algumas características que saltam aos olhos, organizadas nos “8 C’s” da comunicação e assertividade:

Clara: mensagem estruturada com palavras exatas e estrutura lógica, garantindo compreensão imediata, alinhamento total e ação precisa por parte de todos os envolvidos.

Correta: conteúdo factual e gramaticalmente preciso, construindo credibilidade duradoura, confiança recíproca e decisões seguras.

Completa: inclui os detalhes essenciais, respondendo ao “quem, o quê, quando, onde, por que e como”, para clareza total, contexto rico e execução sem falhas.

Concisa: objetiva e focada no essencial, mantendo atenção plena, engajamento contínuo e impacto máximo com mínimo esforço.

Célere: oportuna e no momento exato, assegurando relevância imediata, respostas ágeis e alinhamento temporal com as necessidades do receptor.

Coerente: consistente entre palavras, tom e linguagem corporal, criando alinhamento natural, confiança imediata e mensagens integradas.

Compassiva: empática e validadora dos sentimentos alheios, fortalecendo conexão emocional, respeito mútuo e colaboração genuína.

Cortes: respeitosa e acolhedora, preservando dignidade mútua, harmonia relacional e abertura para diálogos construtivos mesmo em divergências.

E, seguindo aqui nossa jornada, tem mais uma coisinha que gostaria de dividir com você: cuidado com as orientações alicerçadas em proposições negativas, ou seja, o que não fazer ao invés do que fazer. E fundamental que, no exercício da liderança, orientação e fortalecimento de vínculos, adotemos o tanto quanto possível a fala propositiva.

Pense comigo por alguns instantes sobre as falas a seguir:

Não corra na escada! Não fale alto comigo! Não esqueça o guarda chuva! Não chegue atrasado! Não maltrate o seu coleguinha! Não atrase o relatório! Não se esqueça de lançar as informações no sistema! Não trate o cliente de forma seca!

O que tais afirmações apresentam em comum? Elas focam no que você não deseja, ao invés de focar naquilo que deseja acontecer.  Promovendo imagens mentais diretamente opostas daquele comportamento que você deseja produzir. E imagens mentais influenciam comportamentos! Processamento neural da negação e impacto em  imagens mentais no comportamento

O uso de frases negativas como “não chegue atrasado” ou “não fale alto comigo” ativa imagens mentais do comportamento indesejado antes da negação, influenciando escolhas comportamentais de forma contraprodutiva.

O cérebro processa negações em etapas: primeiro ativa o conceito motor ou sensorial da ação (ex.: imagem de “chegar atrasado” no córtex motor primário), depois aplica a inibição via circuitos GABAA, reduzindo a excitação cortical medida por TMS. Isso cria uma representação vívida do erro, aumentando carga cognitiva e risco de reforço inconsciente.

Processamento neural da negação e impacto em imagens mentais no comportamento Negações com verbos de ação diminuem a atividade motora (MEPs), mas o conceito inicial persiste, ativando amígdala e circuitos de ameaça, o que pode sabotar escolhas ao focar no “proibido” em vez do desejado.

Frases afirmativas ativam diretamente redes de recompensa (estriado ventral), facilitando adesão comportamental. Fonte: Exploring the impact of sentential negation on inhibitory motor networks: Insights from paired-pulse TMS" foi publicado na revista Brain and Language (Volume 262, 2025, artigo 105536) 

Então, para seguirmos com este tema, quero trazer aqui, a linguagem propositiva! Mas o que é linguagem propositiva?

Linguagem propositiva é a comunicação que descreve especificamente o comportamento desejado, focando no resultado positivo a ser alcançado, em vez de proibições ou negativos. “Se eu não quero isso o que eu quero especificamente?”

Exemplos: “Chegue às 9h pontualmente” ao invés de “Não atrase”; “Fale em tom moderado” ao invés de “Não grite”. E para finalizarmos nossa jornada, vale lembrar que a elegância sempre traz um perfume especial nas relações e ajuda a construir pontes ao invés de barreiras e abismos e é por neste motivo que vale também pensar sobre a comunicação compassiva, ou Comunicação Não Violenta, CNV.

E para finalizarmos nossa jornada, vale lembrar que a elegância sempre traz um perfume especial nas relações e ajuda a construir pontes ao invés de barreiras e abismos e é por neste motivo que vale também pensar sobre a comunicação compassiva, ou Comunicação Não Violenta, CNV. A Comunicação Não Violenta (CNV) é uma metodologia desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg que promove expressão honesta e escuta empática através de quatro componentes essenciais: observação, sentimentos, necessidades e pedido (OFNP).

·         Observação: descreve fatos concretos sem julgamento (“Você chegou 20 minutos atrasado à reunião”).

·         Sentimentos: expressa emoções puras sem culpa (“Sinto-me frustrado”).

·         Necessidades: identifica necessidades humanas universais (“Porque valorizo pontualidade”).

·         Pedido: solicita ação concreta, positiva e viável (“Você poderia chegar 5 minutos antes na próxima?”).

CNV e cérebro

A CNV complementa a linguagem propositiva ao substituir julgamentos por necessidades humanas, reduzindo ativação amigdalar e promovendo conexão via oxitocina. Diferente da assertividade tradicional (direta mas potencialmente confrontadora), a CNV foca em empatia mútua, transformando conflitos em colaboração.

Imagine agora: ao dominar a sutil arte da comunicação assertiva , com seus 8 C’s afiados, linguagem propositiva que pinta imagens de sucesso e CNV que constrói pontes de empatia , você não só evita o “roubo do pato” nas interações, mas transforma mal-entendidos em alianças duradouras. Seu cérebro, e o do seu interlocutor, agradecerá: menos amígdala em chamas, mais oxitocina fluindo.

Líderes inspiradores não nascem prontos; eles praticam. Comece hoje: escolha uma conversa desafiadora, aplique um “C” ou uma frase propositiva, e observe a mágica. Como mentora de capital humano, eu te convido: seja o Rui Barbosa da sua própria história — eloquente, compassivo e irresistivelmente claro. O que você vai comunicar de diferente amanhã?

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